Eu não conseguia dormir naquela noite chuvosa. A
cabeça deitada no travesseiro não fazia efeito algum. Os olhos, que se fechavam
num movimento automático, também não eram capazes de me arrastar aos reinos do
sonhar. Meu corpo, em desesperadas tentativas de encontrar uma posição mais
confortável, acabava por inutilmente se debater indefinidamente e rolar pela
cama de forma infrutífera.
Considerava essa uma das piores sensações que já
experimentei até aquele momento. A de rolar na cama sabendo que precisa e quer
dormir, mas ver todos os esforços de cortejar uma bela noite de descanso não
trazerem nada mais do que maiores frustrações.
Após um longo tempo que me pareceu uma eternidade
deitado procurando pegar no sono, escutei ruídos de objetos sendo arrastados no
andar de baixo da casa. Duas vozes que começaram a se inflamar me prendiam
ainda mais no plano da consciência e acabavam por me despertando também uma
certa curiosidade. Eu sabia que se tratavam das vozes do meu pai e do sócio
dele. Discutiam negócios, a princípio. Pelo menos, era o que eu imaginava, pois
os ânimos aparentavam residir em outro nível neste momento.