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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Diário matinal de uma avenida urbana

Naquele dia o sol castigava aqueles que se expunham a ele mais do que o habitual, seja pela ausência de nuvens ou mesmo pela estação do ano propícia a isso. As árvores exibiam seu verde vivo e forte que dançava em diferentes ritmos à medida que o vento cortejava suas folhas e galhos. Oito horas da manhã e a avenida não estava tão abarrotada como sempre, apesar de contar, em seus dez quilômetros de extensão, com uma considerável quantidade de carros transitando, acelerando, parando, se arriscando, atrasados e sossegados.
Dia comum. A não ser por algumas figuras.
Quilômetro 1,5: no ponto de ônibus lá estava o bêbado, em plena manhã de quarta-feira, conversando com o imaginário ou aquilo que os outros sóbrios – pobres deles – não podiam ver. Gesticulava, enquanto descansava naquele banco destinado aos pacientes futuros passageiros do transporte coletivo. Apontando para o lado, no sentido dos carros que seguiam naquela faixa, soltou uma gargalhada. Certamente era o mais feliz sujeito daquela avenida e um dos mais felizes da cidade inteira, pois não se importava com nada além de seus devaneios surreais. Um sujeito de sorte.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Cacos ao chão

Normalmente o trânsito naquela hora da manhã era bem truncado e frenético por conta dos tão amados motoqueiros-costureiros apressados. Percorriam-se vinte metros para então ficar parado por pouco mais de um minuto ao se acender o vermelho no sinal. E aquele dia não vinha sendo diferente: Gabriel dos Alencar, com suas raras habilidades automobilísticas, guiava pela faixa da direita da avenida quase atingindo o limite da sua curta paciência.
Parou ao sinal fechado, com cerca de quatro carros à sua frente e o sol mandando suas lembranças ao lamber os pára-brisas dos veículos ali esperando como ele, quando observou o sujeito atravessando a rua na faixa.
Tratava-se do tão conhecido anão japonês daquele bairro, que trabalhava no açougue duas quadras pra frente. Enquanto os olhos de Alencar seguiam o homem que andava a seu próprio ritmo, mal pôde processar a informação de que um estrondoso barulho de motor sendo elevado aos seus limites se aproximava à direita...
E, por conta da pequena distração nipônica, por um pouco não viu quando um verdadeiro animal guiando uma esguia motocicleta vinha a mil pela direita, entre os carros com seus motoristas esperando e os carros estacionados na via.
Quando virou o olhar para o lado, tudo o que conseguiu ver foi o momento em que motoqueiro, agora abaixado para conferir mais aerodinâmica ao seu inconseqüente pilotar, passou moendo tudo ao seu lado, produzindo um triste e doído (para Gabriel) barulho de quebra que não lhe soou nada bom. Todavia, antes mesmo de processar aquela informação, talvez antes mesmo de poder virar o rosto e já no momento em que viu o anão japonês, Gabriel pressentiu o inevitável: seu retrovisor direito restaria pendurado apenas pelos fios, graças às gentilezas daquele motoqueiro absolutamente desequilibrado.
– SEU FILHO DA PU... – não terminou de esbravejar sua polida resposta ao ocorrido pois o arranca-espelhos já se encontrava longe. Obviamente furara o sinal, quase se chocando com o inocente nipônico de baixa estatura que, mais do que todos os outros motoristas ali parados, nada tinha a ver com aquela situação toda.
Indignado e consternado, Alencar recebeu olhares de solidariedade e igual indignação de seus vizinhos de sinal, observando da mesma forma nas feições do rapaz que vendia balas e drops a clara formação de uma expressão de “viiiiiiiiiiish” se anuviando.
– Essas bostas fazem parte, cara! Segue o jogo! – Alguém gritou. Em resposta, acenou com a cabeça e deu um sorriso meio amarelado, pois por dentro fervilhava, tomado por uma profunda ira, que foi se tornando mais branda depois que ele começou a contar suas longas respirações ao buscar diminuir a irritação. Afinal, o sujeito que lhe deu apoio tinha razão.
Na hora de voltar a se movimentar, engatou a primeira e seguiu seu rumo rotineiro, deixando alguns cacos quebrados para trás.
O espelho retrovisor demoraria uma semana e meia para arrumar, e isso depois de quase ser pego pela fiscalização de trânsito da cidade. O motoqueiro imbecil, nunca mais viu. No dia seguinte, já se deparou com o anão japonês de novo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Carlinhu 29

Estava prestes a bater seu recorde pessoal de velocidade quando um pequeno alarme interno o fez diminuir a passada. Como um sentido-aranha ou aquela campainha aguda do celular, que quando toca pela manhã quase o faz jogar o aparelho na parede, ele soube, só que de forma mais intimista e até sutil.
E, infelizmente, não estava enganado.
Lá vinha o rapaz novamente, todo alegre e sorridente, numa serelepimpância invejável. O pobre iludido vinha balançando os ombros em um remelexo corporal desengonçado, com seu olhar confiante, absoluto de si mas, coitado, sem fazer nem ideia da repulsa que sua presença causava no outro. O até então quase recordista desacelerou quase por completo a esteira ao notar pelo canto dos olhos que o infeliz sorridente bobo alegre indesejado estava olhando diretamente pra ele, vindo em sua direção.
Brace yourselves...” repetiu mentalmente a célebre frase do seriado, substituindo a sequência da sentença para “o cheiroso está chegando”.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cotidiano do sonho esquecido

Acordou chutando o lençol, testa suada, olhando ao redor com cautela em manifesto momento de inquietação, com perfeita ciência de que a desorientação tomara posse de suas faculdades mentais. Não emitiu som algum pela boca.
Praguejando baixinho ao se apoiar na borda da cama para acomodar de maneira mais completa sua traseira, foi capaz de ver passar um breve filme em sua mente acerca daquele momento, quase como um daqueles déjà vu. Quando moleque, era também arremessado de forma violenta para fora de um sonho qualquer, caindo diretamente nas garras daquela vadia da realidade. Porém, nestes outros tempos se tratavam somente daqueles sonhos idiotas onde se tinha a infeliz da sensação de estar caindo de um edifício de infinitos andares. Ultimamente, desconhecia o motivo, mas estava familiarizado com o resultado.
Foi propositalmente incapaz de notar a desordem absoluta do quarto ao se encaminhar ao banheiro. Seus pés não encontraram nenhuma das garrafas vazias esquecidas no chão e, por isso, ele se manteve ativamente satisfeito neste jogo de auto-ilusão.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Aquela do gordinho da perna de aço

Às vezes algumas coisas simplesmente não eram para ser.
Mergulhado em devaneios profundos, questões que em qualquer outro momento seriam insignificantes, mas que, naquele exato instante, faziam sentido e tinham importância, fui arrastando pé ante pé, como um condenado ao corredor da morte ou um infeliz marcado a passar um feriado prolongado trancafiado com aquele tagarela chato da família enquanto na TV não existisse nada além de um looping infinito programas dominicais.
Bem, aquilo seria bom para mim, eu repetia. Insistia no argumento, cada vez mais batido. A voz irritante matraqueava no meu ouvido, “alá, é bom, não, não para não...” e eu continuava me arrastando.
– E ai, cara, vamos entrando!
Nem me toquei que já havia chegado.
Profundos devaneios, afinal.
Poderia estar matando, roubando, vendendo chicletes, tomando uma cerveja com o meu vizinho no happy hour, lambendo os dedos cheios de farelos de salgadinhos, fazendo ligações a cobrar ou até assistindo a novela.
Mas não. Estava lá, na minha segunda semana de aulas de muay thai.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Idas e vindas

– Já te disse pra esquecer iss...
– CALA ESSA BOCA!! Me faz um favor, faz um favor pro mundo, seu bosta: cale essa maldita boca!
– Escuta aqui, sua... – ele ia xingar, mas pensou melhor. Porém, antes de conseguir articular sua revigorada linha argumentativa, ela continuou:
– Ah é?! Agora você vai ficar falando merda de mim, seu filho da put...
– Charlote. Para. Por favor. Me deixa falar.
– Tudo, absolutamente tudo que você fala pra mim não passa da mais pura e fedorenta merda.
– Não é bem assim... calma...
– Só vou ter calma quando você parar de me encher o saco de vez, seu desgraçado.
– Você está com a cabeça quente.
– EU TÔ COM A CABEÇA QUENTE?
– Vo...
– ESCUTA AQUI, SEU MERDA. NUNCA MAIS...
Silêncio.
Do outro lado da linha, tudo o que ele pôde ouvir foi o mais profundo e irremediável silêncio. Chegava a ser constrangedor ante a ferrenha discussão que já durava cerca de uma hora e meia. Ela costumava ter estes ataques. Ele lidava melhor com aquilo quando tinha em mãos algo para molhar o bico. Não era o caso. E ela estava desta vez levando as coisas para um nível que até o próprio Leonardo não conseguia prever e muito menos podia saber como lidar. Se ao menos tivesse algo para beber...

sexta-feira, 13 de março de 2015

Bateria

Acordou no meio da noite, a escuridão envolvendo o quarto quase que por completo à exceção da luzinha da bateria do notebook que piscava sua fraca claridade azul para avisar que estava em processo de recarga.
Estava meio zonzo. Sonho ruim. Olhou de lado, virou para o outro, pra cima e para baixo, sem conseguir decifrar seus próprios sentimentos imediatos.
Ora, por que havia acordado àquela hora e, mais, por que se levantou assim? Poderia muito bem ter permanecido ali, deitado e paciente, esperando o sono voltar a abraça-lo.
Tolo, pensou.
Resmungando, colocou as pernas na beirada da cama. “Que merda é essa?”
Sabia, com certeza, que não precisava ir ao banheiro e que sua garganta não estava seca, não necessitando naquele momento se levantar para ir à cozinha buscar água. Duas necessidades tidas como urgentes que descartara de pronto. Contudo, mesmo assim, sentia falta de algo. Mas independente disso, amaldiçoando aquele momento, não sabia o que procurar, ou onde, ou como.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Círculo

– Escuta aqui, seu puto – cuspiu enraivecido enquanto se levantava – perdeu amor a essa sua vidinha de merda?
Qualquer um poderia farejar uma briga feia a caminho. A galope, em urgente iminência, como a decolagem certa de um avião que se encaminha ligeiro ao longo da pista de lançamento.
Eu não fiz, exatamente, por mal. Na verdade tratou-se muito mais de um impulso impensado, irracional e completamente alheio a tudo que eu já vivenciara do que um movimento ponderado e calculado. Ele simplesmente estava lá, eu há uns cinco metros, e aquilo aconteceu.
O homem era mais alto do que eu. Uns dez centímetros, pelo menos, e aparentava robustez de músculos, lembrando muito um grande barril de carvalho.
Veio bufando e quase babando, com olhos de fúria e embriaguez, para cima de mim, de punhos cerrados e peito aberto, como um verdadeiro galo de briga. Não tive escolha.

domingo, 31 de agosto de 2014

Sinal vermelho

Dirijo.
Trabalhava em um novo projeto de condomínio. Ainda estava no rascunho e não sabia dizer se ficaria bom. Minha precocidade na função conferia a cada ato meu uma grande pitada de incertezas. Mas esta gama de possibilidades me fascinava. Meus desenhos, que antes eram cheios de vida mas um tanto quanto imaginativos demais, passaram a ganhar traços verossímeis e realistas, coisa que facilitaria o processo de aceitação e posterior execução daquilo que foi projetado. Essa era a tendência. O lápis ainda deslizava sobre a folha com um certo vigor, mas possuía uma trajetória diferente que outrora tivera. Eu estava aprendendo. Isso já era algo a se celebrar.
Terminava um gramado qualquer quando o telefone tocou.
Acidente feio. Mortes. Eu sabia quem. Deveria me apressar. Perdi o chão. Larguei tudo. Corri. Era noite. Chovia. Entrei no carro. Dei a partida. Arranquei. Estava desorientado. Sinal. Vermelho. Furei. Não pensava. Alucinado. Caótico. Acelerava. Rápido. Para-brisa molhado. Faixa contínua. Mão dupla. Enxergava muito mal. Pensava em tudo. E em nada. Não diminuía. Ainda longe. Acelerei. Outro sinal. Vermelho.
Dirigia.
A luz à esquerda surgiu e repentinamente cresceu, envolvendo tudo ao meu redor, rápida.
Não ouvi estrondo algum.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Cheeseburguer duplo com preço de triplo

Às vezes é bem difícil entender e se fazer compreensível. Mas, na maioria das vezes, na verdade, não é culpa sua.
Por exemplo: certo dia, estava andando pelo centro um pouco apressado, cumprindo tarefas inerentes e essenciais ao meu trabalho. Normalmente fico sentado a maior parte do tempo, digitando alucinadamente nas teclas do meu notebook. Porém, em ocasiões como aquela, precisava bater um pouco de perna.
Era perto da hora do almoço e meu estômago roncava, exigente. Com razão, o pobre coitado, pois não havia mandado nada para lá desde as primeiras horas da manhã, que foi quando acordei já cansado – quanto a isso, não existiam exceções, infelizmente.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Notas de um cão na selva urbana

Me chamavam de Pinguinho. Mas isso era no começo. Eu era bem pequeno, muito menor do que hoje, não sabia nem levantar a perna na hora de me aliviar. Aí, quando eu cresci, alguns passaram a me chamar de Pingo mesmo, até o dia em que um humano pequeno e folgado me tirou da gaiolinha em que me deixavam e começou a me apertar. Aí eu mordi ele com meus dentinhos que começavam a não doer mais. Passaram a olhar para mim e me chamar de Feroz, Esquentado ou Fera. Eu gostava mais de Pingo mesmo, mas ninguém me apertou de novo daquele jeito e me davam comida sempre, então tudo bem.
Dessa época que passou há muito tempo eu me lembro só disso.
Sei que teve um grupo de humanos que cuidava de mim depois daquela gaiola. Eles eram bons, mas nunca mais vi nenhum deles.

sábado, 5 de julho de 2014

O sequestro bizarro

Ainda meio zonzo, ele acordou em um ambiente completamente desconhecido. Sentiu a cabeça inchada, com algo meio grudado – o que julgou ser o próprio sangue seco. Supunha que tenha tomado uma forte pancada, pois restara evidente que estava desacordado há pelo menos duas horas.
Estéban não compreendia o porquê disso tudo. Só se lembrava de ter ido assistir ao jogo da Copa do Mundo num bar perto do estádio em Fortaleza. O jogo era Brasil contra Colômbia. Se lembrava de ter ido vestido à caráter, com o uniforme de seu time – Colômbia. Viu sua seleção perder por 2 a 1. Não recordava de mais nada.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Bosta de passarinho

Todos os dias, Júlio se deparava com sujos desafios em sua rotina de trabalho.
Gostava de falar para os amigos que era empregado no ramo da “purificação automobilística”; que “a boa aparência dos carrões na rua são por minha causa”.
Júlio estava desempregado até três semanas atrás. Tinha duzentas contas para pagar, e o número de cobranças em outros campos também não deixava a desejar. Aluguel quatro meses atrasado. O telefone já não tocava há quase um ano – Júlio deixara com que fosse cortado. Buscava justificar dizendo que era melhor assim, porque teria mais paz em casa.
A casa de Júlio tinha um sofá-cama quebrado, uma televisão que, com o Bombril na antena, só pegava três canais, um fogão quatro bocas (somente duas funcionavam) e uma geladeira. Só.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O menino e o mar

Um pequeno garoto, que vivia numa cidade praiana, ia à beira do mar todos os dias para observar as ondas quebrando adiante.
Não entendia muito bem como funcionava a física envolvida no processo, mas sempre se encontrava obediente e fascinado em suas rotineiras admirações ao extenso e infindável oceano.
O menino, muito magro e miúdo, era um sonhador que, com seus 1 metro e 30 de altura, não deixava suas fantasias mais distantes serem abaladas pelas dores que, tão pequeno, já sofrera. Perdera o pai cedo e a mãe, se desdobrando em mais de um trabalho para manter a dignidade do lar, não conseguia dar a atenção necessária para um imaginativo garoto de 8 anos de idade.