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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Caixas com paraquedas – uma história de Sporcizia Legali

O gélido ar da madrugada fazia com que sua respiração saísse por vezes em vapores em condensação, o que lhe causava a impressão de estar expelindo fumaça pela boca. Consequentemente, se lembrou de figuras como dragões em contos épicos, de um certo personagem de game de luta e daquele outro sujeito da animação que cuspia gelo. Ou fabricava com as mãos, tanto faz. Estava divagando. Aquela cidade, em certos períodos (ou até em momentos isolados), era capaz de provocar mudanças de sensação climática bruscas. Andrico Fassolini jurava que, no dia anterior, fez calor. De qualquer forma, aquilo não importava mais, já que às quatro e meia da manhã em um centro urbano de costumes e percepções exóticas, qualquer situação poderia se materializar. Surpreso ele não ficava mais há um tempo.
Aguardava sozinho há cerca de vinte minutos quando, finalmente, o par de faróis de um veículo conhecido surgiu ao longe.
Enquanto o Peugeot de seu amigo se aproximava, cuspindo mais fumaça pelo escapamento do que Andrico neste tempo todo de espera, um detalhe no banco do carona chamou a atenção do observador que aguardava. Na realidade, não se tratava de uma questão da presença de alguém, pois o motorista estava sozinho.
– Cadê o Hobbit, cara? – perguntou Fassolini assim que o recém-chegado puxou o freio de mão.
– Ué! Achei que ele estaria com você.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Diário matinal de uma avenida urbana

Naquele dia o sol castigava aqueles que se expunham a ele mais do que o habitual, seja pela ausência de nuvens ou mesmo pela estação do ano propícia a isso. As árvores exibiam seu verde vivo e forte que dançava em diferentes ritmos à medida que o vento cortejava suas folhas e galhos. Oito horas da manhã e a avenida não estava tão abarrotada como sempre, apesar de contar, em seus dez quilômetros de extensão, com uma considerável quantidade de carros transitando, acelerando, parando, se arriscando, atrasados e sossegados.
Dia comum. A não ser por algumas figuras.
Quilômetro 1,5: no ponto de ônibus lá estava o bêbado, em plena manhã de quarta-feira, conversando com o imaginário ou aquilo que os outros sóbrios – pobres deles – não podiam ver. Gesticulava, enquanto descansava naquele banco destinado aos pacientes futuros passageiros do transporte coletivo. Apontando para o lado, no sentido dos carros que seguiam naquela faixa, soltou uma gargalhada. Certamente era o mais feliz sujeito daquela avenida e um dos mais felizes da cidade inteira, pois não se importava com nada além de seus devaneios surreais. Um sujeito de sorte.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Seiscentos e trinta e quatro

Sentia aquele hálito gelado na nuca enquanto os dedos descarnados dançavam suavemente sob a parte lateral de seu ombro. A imagem de um pobre infeliz como ele lhe apareceu à frente, num estrondoso grito sem voz, de voz que nunca seria ouvida, súplica silenciosa jamais recebida. Permaneceu parado enquanto a encapuzada misteriosa com seu beijo doce de perdição se aproximava cada vez mais; qualquer um poderia ter tentado correr. Sabia que ali, naquele campo, naquele local, naquele momento, este tipo de atitude seria completamente inútil. A figura do condenado à sua frente já não estava ansioso. Aguardava paciente. Não olhava mais pra ele, mas para a Temida atrás dele, que agora segurava com certa firmeza seu braço. O abraço da morte se aproximava. Chovia. Em meio à névoa, três figuras perdidas do mundo da realidade compartilhavam em contemplação reverente aquele pacto fatal que se alinhavava. Palavras humanas seriam insuficientes para descrever aquele tempestuoso, porém sereno momento. Dois condenados, um carrasco. A Morte quase o abraçava e, sentindo frio, mesmo à mercê do gélido toque da Dama de Preto, não se moveu. Sua atenção estava quase toda no sereno sujeito à sua frente que, em meio à escuridão, não estava marcado com a mórbida presença dela como ele estava. Aí, a compreensão e a certeza golpearam instantaneamente o quase-abraçado. Moribundo, ele, quase entregue à morte. O sujeito que encarava, porém, apesar de habitar de forma febril seus raivosos pensamentos, não. Sua jornada, então, teria que chegar ao seu fim. A Morte aproximava suas próprias mãos uma da outra em volta dele, praticamente completando o abraço que o levaria, quando ele se desvencilhou e deu um abrupto passo com firmeza para frente, movimento que fez com que os dedos descarnados e pontiagudos marcassem com profundos cortes seus braços. "Ainda não."

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Cacos ao chão

Normalmente o trânsito naquela hora da manhã era bem truncado e frenético por conta dos tão amados motoqueiros-costureiros apressados. Percorriam-se vinte metros para então ficar parado por pouco mais de um minuto ao se acender o vermelho no sinal. E aquele dia não vinha sendo diferente: Gabriel dos Alencar, com suas raras habilidades automobilísticas, guiava pela faixa da direita da avenida quase atingindo o limite da sua curta paciência.
Parou ao sinal fechado, com cerca de quatro carros à sua frente e o sol mandando suas lembranças ao lamber os pára-brisas dos veículos ali esperando como ele, quando observou o sujeito atravessando a rua na faixa.
Tratava-se do tão conhecido anão japonês daquele bairro, que trabalhava no açougue duas quadras pra frente. Enquanto os olhos de Alencar seguiam o homem que andava a seu próprio ritmo, mal pôde processar a informação de que um estrondoso barulho de motor sendo elevado aos seus limites se aproximava à direita...
E, por conta da pequena distração nipônica, por um pouco não viu quando um verdadeiro animal guiando uma esguia motocicleta vinha a mil pela direita, entre os carros com seus motoristas esperando e os carros estacionados na via.
Quando virou o olhar para o lado, tudo o que conseguiu ver foi o momento em que motoqueiro, agora abaixado para conferir mais aerodinâmica ao seu inconseqüente pilotar, passou moendo tudo ao seu lado, produzindo um triste e doído (para Gabriel) barulho de quebra que não lhe soou nada bom. Todavia, antes mesmo de processar aquela informação, talvez antes mesmo de poder virar o rosto e já no momento em que viu o anão japonês, Gabriel pressentiu o inevitável: seu retrovisor direito restaria pendurado apenas pelos fios, graças às gentilezas daquele motoqueiro absolutamente desequilibrado.
– SEU FILHO DA PU... – não terminou de esbravejar sua polida resposta ao ocorrido pois o arranca-espelhos já se encontrava longe. Obviamente furara o sinal, quase se chocando com o inocente nipônico de baixa estatura que, mais do que todos os outros motoristas ali parados, nada tinha a ver com aquela situação toda.
Indignado e consternado, Alencar recebeu olhares de solidariedade e igual indignação de seus vizinhos de sinal, observando da mesma forma nas feições do rapaz que vendia balas e drops a clara formação de uma expressão de “viiiiiiiiiiish” se anuviando.
– Essas bostas fazem parte, cara! Segue o jogo! – Alguém gritou. Em resposta, acenou com a cabeça e deu um sorriso meio amarelado, pois por dentro fervilhava, tomado por uma profunda ira, que foi se tornando mais branda depois que ele começou a contar suas longas respirações ao buscar diminuir a irritação. Afinal, o sujeito que lhe deu apoio tinha razão.
Na hora de voltar a se movimentar, engatou a primeira e seguiu seu rumo rotineiro, deixando alguns cacos quebrados para trás.
O espelho retrovisor demoraria uma semana e meia para arrumar, e isso depois de quase ser pego pela fiscalização de trânsito da cidade. O motoqueiro imbecil, nunca mais viu. No dia seguinte, já se deparou com o anão japonês de novo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Carlinhu 29

Estava prestes a bater seu recorde pessoal de velocidade quando um pequeno alarme interno o fez diminuir a passada. Como um sentido-aranha ou aquela campainha aguda do celular, que quando toca pela manhã quase o faz jogar o aparelho na parede, ele soube, só que de forma mais intimista e até sutil.
E, infelizmente, não estava enganado.
Lá vinha o rapaz novamente, todo alegre e sorridente, numa serelepimpância invejável. O pobre iludido vinha balançando os ombros em um remelexo corporal desengonçado, com seu olhar confiante, absoluto de si mas, coitado, sem fazer nem ideia da repulsa que sua presença causava no outro. O até então quase recordista desacelerou quase por completo a esteira ao notar pelo canto dos olhos que o infeliz sorridente bobo alegre indesejado estava olhando diretamente pra ele, vindo em sua direção.
Brace yourselves...” repetiu mentalmente a célebre frase do seriado, substituindo a sequência da sentença para “o cheiroso está chegando”.

domingo, 15 de maio de 2016

gritos vazios

Sentei-me em frente à mesa
com o teclado pedindo para ser
teclado
o copo ao lado suando gota solitária
escorrendo em reverente delicadeza
que atrasava um pouco mais
a lentidão da descida
tela em branco e eu
querendo escrever alguma
coisa
Formar palavras
frases
nem que fossem
belas mentiras
doces ilusões
A gota, antes no copo
agora na testa enrugada
me denunciava a verdade
escancarada
aquela realidade de merda que
me assombrava enquanto minha
mente procurava a ignorância:
Não.
Eu não tinha nada a
dizer.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cotidiano do sonho esquecido

Acordou chutando o lençol, testa suada, olhando ao redor com cautela em manifesto momento de inquietação, com perfeita ciência de que a desorientação tomara posse de suas faculdades mentais. Não emitiu som algum pela boca.
Praguejando baixinho ao se apoiar na borda da cama para acomodar de maneira mais completa sua traseira, foi capaz de ver passar um breve filme em sua mente acerca daquele momento, quase como um daqueles déjà vu. Quando moleque, era também arremessado de forma violenta para fora de um sonho qualquer, caindo diretamente nas garras daquela vadia da realidade. Porém, nestes outros tempos se tratavam somente daqueles sonhos idiotas onde se tinha a infeliz da sensação de estar caindo de um edifício de infinitos andares. Ultimamente, desconhecia o motivo, mas estava familiarizado com o resultado.
Foi propositalmente incapaz de notar a desordem absoluta do quarto ao se encaminhar ao banheiro. Seus pés não encontraram nenhuma das garrafas vazias esquecidas no chão e, por isso, ele se manteve ativamente satisfeito neste jogo de auto-ilusão.

domingo, 31 de maio de 2015

Visita no turno da noite

– Raimundão! Ê, Raimundão! – chamou o balconista pela janelinha de dentro da conveniência. Raimundo acabara de recolocar a mangueira em seu devido lugar. – O Branquinho quer falar com você lá na sala dele...
Agradecendo com um aceno de cabeça, Raimundo começou a se encaminhar lentamente para os fundos do estabelecimento, onde ficava um pequeno complexo acinzentado contendo, dentre espaços destinados aos próprios funcionários, um gabinete dentro do qual o gerente do posto de gasolina se aninhava e vivia lançando comandos administrativos bestas aos subordinados pelo telefone.
Humildemente, o frentista bateu de leve na porta do chefe e colocou a cabeça para dentro da sala.
– Oh, olá, Raimundo, gostaria de dar uma palavrinha contigo – o gerente, apelidado sarcástica e secretamente de Branquinho pelos empregados do posto, se pavoneava com diversos dos seus itens excêntricos de coleção espalhados pela mesa. – Pode se sentar, homem, não tenha medo – emendou o gerente. O homem não era má gente, afinal.
Coçando a cabeça, já aguardando pelo pior, Raimundo se sentou na dura poltrona cor de carne dos anos 80 enquanto revezava seu olhar de Branquinho para anéis de lata jogados pela mesa e vice-versa.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Aquela do gordinho da perna de aço

Às vezes algumas coisas simplesmente não eram para ser.
Mergulhado em devaneios profundos, questões que em qualquer outro momento seriam insignificantes, mas que, naquele exato instante, faziam sentido e tinham importância, fui arrastando pé ante pé, como um condenado ao corredor da morte ou um infeliz marcado a passar um feriado prolongado trancafiado com aquele tagarela chato da família enquanto na TV não existisse nada além de um looping infinito programas dominicais.
Bem, aquilo seria bom para mim, eu repetia. Insistia no argumento, cada vez mais batido. A voz irritante matraqueava no meu ouvido, “alá, é bom, não, não para não...” e eu continuava me arrastando.
– E ai, cara, vamos entrando!
Nem me toquei que já havia chegado.
Profundos devaneios, afinal.
Poderia estar matando, roubando, vendendo chicletes, tomando uma cerveja com o meu vizinho no happy hour, lambendo os dedos cheios de farelos de salgadinhos, fazendo ligações a cobrar ou até assistindo a novela.
Mas não. Estava lá, na minha segunda semana de aulas de muay thai.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Idas e vindas

– Já te disse pra esquecer iss...
– CALA ESSA BOCA!! Me faz um favor, faz um favor pro mundo, seu bosta: cale essa maldita boca!
– Escuta aqui, sua... – ele ia xingar, mas pensou melhor. Porém, antes de conseguir articular sua revigorada linha argumentativa, ela continuou:
– Ah é?! Agora você vai ficar falando merda de mim, seu filho da put...
– Charlote. Para. Por favor. Me deixa falar.
– Tudo, absolutamente tudo que você fala pra mim não passa da mais pura e fedorenta merda.
– Não é bem assim... calma...
– Só vou ter calma quando você parar de me encher o saco de vez, seu desgraçado.
– Você está com a cabeça quente.
– EU TÔ COM A CABEÇA QUENTE?
– Vo...
– ESCUTA AQUI, SEU MERDA. NUNCA MAIS...
Silêncio.
Do outro lado da linha, tudo o que ele pôde ouvir foi o mais profundo e irremediável silêncio. Chegava a ser constrangedor ante a ferrenha discussão que já durava cerca de uma hora e meia. Ela costumava ter estes ataques. Ele lidava melhor com aquilo quando tinha em mãos algo para molhar o bico. Não era o caso. E ela estava desta vez levando as coisas para um nível que até o próprio Leonardo não conseguia prever e muito menos podia saber como lidar. Se ao menos tivesse algo para beber...

domingo, 22 de março de 2015

O vale das sombras

Caía.
Embaixo de si, nada além das fortes rajadas de vento que vinham de encontro com seu corpo paralisado que, sob a influência irresistível da gravidade
você
não
devia
...
caía.
Olhava à volta. Nada além de escuridão, no que parecia ser uma parede cavernal úmida e perigosa. A agonia crescia em seu peito, pois a queda parecia não ter fim – num abismo infernal que, apesar de conter toques evidentemente oníricos, não se tratava de um daqueles simples sonhos de queda livre. Sua própria alma estava gelada e, se pudesse em sua consciência apostar em algo, apostaria que aquilo tudo era

sexta-feira, 13 de março de 2015

Bateria

Acordou no meio da noite, a escuridão envolvendo o quarto quase que por completo à exceção da luzinha da bateria do notebook que piscava sua fraca claridade azul para avisar que estava em processo de recarga.
Estava meio zonzo. Sonho ruim. Olhou de lado, virou para o outro, pra cima e para baixo, sem conseguir decifrar seus próprios sentimentos imediatos.
Ora, por que havia acordado àquela hora e, mais, por que se levantou assim? Poderia muito bem ter permanecido ali, deitado e paciente, esperando o sono voltar a abraça-lo.
Tolo, pensou.
Resmungando, colocou as pernas na beirada da cama. “Que merda é essa?”
Sabia, com certeza, que não precisava ir ao banheiro e que sua garganta não estava seca, não necessitando naquele momento se levantar para ir à cozinha buscar água. Duas necessidades tidas como urgentes que descartara de pronto. Contudo, mesmo assim, sentia falta de algo. Mas independente disso, amaldiçoando aquele momento, não sabia o que procurar, ou onde, ou como.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Manhã de sexta

6h14 da madrugada e eu, irremediavelmente, já me encontro desperto. Não teve jeito. Novamente, acordei por volta de uma hora e seis minutos antes do meu despertador gritar para cumprir sua função de me tirar do sono pesado.
Devagar, abro os olhos, fechando-os logo em seguida depressa. Mais uma vez, abro-os. Fecho. Abro. E o processo se repete até que não só meu subconsciente, mas boa parte da minha cognição perceptiva e até mesmo alguns outros músculos corporais tenham ciência de que desta vez o repouso não se estenderá mais. Abro os olhos.
Ainda deitado na cama, me deparo com aquilo que é a pior parte deste processo todo: se levantar da cama. Não, o pior de tudo não é conseguir abrir os olhos de vez ou se convencer de que o dia começou mais cedo. A parte mais problemática é realmente a de colocar todo o conjunto corporal para trabalhar nos esforços cooperativos de se mexer com o objetivo final de sair daquilo que é o santuário aconchegante e irresistível do sono. Uma das escolhas mais difíceis que alguém que acordou cedo demais toma é a de se retirar da cama. É como se durante o processo uma parte sua ainda ficasse por lá, não importa a maneira com a qual se levante – mais rápido ou com maior demora. Dói de qualquer forma.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Canudo gigante no céu azul

Rodava com o carro exibindo o braço esquerdo pendurado na janela aberta aos raspões da brisa suave, mas pesada que se chocava com aquele corpo em movimento. O sol da tarde já havia se escondido atrás dos edifícios mais altos ao redor, de forma que a luz forte do astro que habitualmente obriga a todos os motoristas a abaixar o quebra-sol e mesmo assim fazer fendas com os olhos para enxergar se despedira minutos atrás. Apesar do trânsito leve, a avenida estava tranquila para se movimentar.
No rádio, Springsteen cantava “You’re Missing”. O carro ia à cerca de 50 por hora, sem pressa. Ele sentia-se em um momento contemplativo, só que não sabia ainda ao certo do quê.
Olhou para fora através de seus óculos de sol de lentes verde e observou as pessoas, algumas poucas correndo para manter a forma, a maioria com pressa para chegar a algum lugar e algumas outras cansadas depois de mais um dia de trabalho. Entendia-as.
“Everything is everything...” ouvia-se no interior do seu carro.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Círculo

– Escuta aqui, seu puto – cuspiu enraivecido enquanto se levantava – perdeu amor a essa sua vidinha de merda?
Qualquer um poderia farejar uma briga feia a caminho. A galope, em urgente iminência, como a decolagem certa de um avião que se encaminha ligeiro ao longo da pista de lançamento.
Eu não fiz, exatamente, por mal. Na verdade tratou-se muito mais de um impulso impensado, irracional e completamente alheio a tudo que eu já vivenciara do que um movimento ponderado e calculado. Ele simplesmente estava lá, eu há uns cinco metros, e aquilo aconteceu.
O homem era mais alto do que eu. Uns dez centímetros, pelo menos, e aparentava robustez de músculos, lembrando muito um grande barril de carvalho.
Veio bufando e quase babando, com olhos de fúria e embriaguez, para cima de mim, de punhos cerrados e peito aberto, como um verdadeiro galo de briga. Não tive escolha.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Céu canino

– Ei, cara – ele me acordou, enquanto me cutucava com a pata. Parecia já estar tentando chamar minha atenção há um tempo. – Acorda aí, cara.
Abri os olhos lentamente. Inicialmente, não me dei conta de nada diferente. Mas, aos poucos, comecei a estranhar essa situação como um todo. Existia algo no mínimo peculiar acontecendo.
– Isso aí, mermão. Agora levanta, vamos lá, vamo batê perna – ele insistia, inquieto, visivelmente alegre por ter despertado minha atenção. Sorria, com a língua para fora, e dava pulinhos de animação. Abanava o rabinho.
Aí, me toquei.
Acreditei que ainda estava sonhando, pois pasmei enquanto constatava vagarosamente que eu estava ouvindo claramente meu cachorro falar comigo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O homem sem rosto

Na época, meu irmão tinha seis anos. Era mais uma criança feliz, saudável e esperta, que frequentava a escolinha e não tinha problemas de convivência com nenhum de seus colegas, professores ou familiares. Estava todo tempo a matraquear pelos cantos, correndo e brincando como se não houvesse amanhã. Seus olhos grandes e de um verde claro expressavam de sobremaneira todo seu alegre e constante estado de espírito.
Apesar de toda a intensidade física das correrias e brincadeiras de meu irmão mais novo, o bairro em que morávamos, no centro da capital paranaense, não permitia que a criança saísse às ruas de modo que nossa mãe ficasse sossegada, já que o local era, essencialmente, urbano e muito movimentado. Residíamos em um apartamento alto, bem no meio de uma grande avenida que contava com diversas lojas e estabelecimentos. A frequente e, por vezes, perigosa rotina urbana daquele local trancafiava a mim e ao meu irmão em casa sozinhos, todas as tardes, depois da escola.
Certa tarde de inverno, o apartamento todo fechado, meu irmão, em meio a uma partida de videogame, me confidenciou algo que, pela sua fala, soava como um forçoso momento em que se procura fazer o outro acreditar que aquilo que se está dizendo trata-se da coisa mais normal do mundo:

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Aquela experiência traumática que ele tentou evitar

Poço.
E ele sentia crescer dentro de si aquela apreensão imensa e esmagadora, que na verdade se tratava de um profundo e escuro
poço
consumindo-o, abrindo uma ferida que esperança ou misericórdia alguma poderiam suprimir, uma ferida tão grande que sua presença, afinal, não passava de uma verdadeira ausência de algo que outrora estivera ali e parecia-lhe ser algo de extrema importância, mas que agora...
Um espasmo nervoso.

domingo, 31 de agosto de 2014

Sinal vermelho

Dirijo.
Trabalhava em um novo projeto de condomínio. Ainda estava no rascunho e não sabia dizer se ficaria bom. Minha precocidade na função conferia a cada ato meu uma grande pitada de incertezas. Mas esta gama de possibilidades me fascinava. Meus desenhos, que antes eram cheios de vida mas um tanto quanto imaginativos demais, passaram a ganhar traços verossímeis e realistas, coisa que facilitaria o processo de aceitação e posterior execução daquilo que foi projetado. Essa era a tendência. O lápis ainda deslizava sobre a folha com um certo vigor, mas possuía uma trajetória diferente que outrora tivera. Eu estava aprendendo. Isso já era algo a se celebrar.
Terminava um gramado qualquer quando o telefone tocou.
Acidente feio. Mortes. Eu sabia quem. Deveria me apressar. Perdi o chão. Larguei tudo. Corri. Era noite. Chovia. Entrei no carro. Dei a partida. Arranquei. Estava desorientado. Sinal. Vermelho. Furei. Não pensava. Alucinado. Caótico. Acelerava. Rápido. Para-brisa molhado. Faixa contínua. Mão dupla. Enxergava muito mal. Pensava em tudo. E em nada. Não diminuía. Ainda longe. Acelerei. Outro sinal. Vermelho.
Dirigia.
A luz à esquerda surgiu e repentinamente cresceu, envolvendo tudo ao meu redor, rápida.
Não ouvi estrondo algum.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Dois carniceiros no céu

Certa vez, no intervalo de uma aula para outra, sentados em um dos vários bancos do arborizado campus, eu e Jeremias conversávamos.
– Se você parar pra pensar – dizia ele –, hoje em dia as produções andam muito mais caprichadas...
– É... – minhas ponderações daquele momento não acrescentavam muita informação relevante ao raciocínio. Me limitava a concordar.
– Sabe o que eu digo. Não é que não existissem séries boas antes. Mas hoje parece que há um apelo muito forte ao formato. Muitos astros do cinema estão protagonizando ou participando de séries.