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terça-feira, 27 de junho de 2017

estrelinha brilhante

veio já em meio à tormenta
difícil puxar o ar
difícil começar a
lutar
quando pôde, era fraquinho
o ar que entrava,
que saía,
seus movimentos,
seu descansar
a luta
não cessou
só fez aumentar
o cisquinho tinha que
vencer barreiras
gigantes
maiores do que
o imaginável
o cisquinho
lutou
e quando depois de toda uma longa
angústia
cheia de
dores,
descansou e
já não tinha mais
o brilho em seus
olhinhos,
soube que ela finalmente
tinha ido ser aquilo
que ela veio para
ser
um cisquinho
de brilho distante
mas intenso e
cheio de
luz
lá em cima no
céu
a luta ficou por conta
dos que ficaram, pois
a pequenina
virou estrelinha
brilhante
provando novamente
que o céu é, sim,
lugar de
cachorro.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Manhã de sexta

6h14 da madrugada e eu, irremediavelmente, já me encontro desperto. Não teve jeito. Novamente, acordei por volta de uma hora e seis minutos antes do meu despertador gritar para cumprir sua função de me tirar do sono pesado.
Devagar, abro os olhos, fechando-os logo em seguida depressa. Mais uma vez, abro-os. Fecho. Abro. E o processo se repete até que não só meu subconsciente, mas boa parte da minha cognição perceptiva e até mesmo alguns outros músculos corporais tenham ciência de que desta vez o repouso não se estenderá mais. Abro os olhos.
Ainda deitado na cama, me deparo com aquilo que é a pior parte deste processo todo: se levantar da cama. Não, o pior de tudo não é conseguir abrir os olhos de vez ou se convencer de que o dia começou mais cedo. A parte mais problemática é realmente a de colocar todo o conjunto corporal para trabalhar nos esforços cooperativos de se mexer com o objetivo final de sair daquilo que é o santuário aconchegante e irresistível do sono. Uma das escolhas mais difíceis que alguém que acordou cedo demais toma é a de se retirar da cama. É como se durante o processo uma parte sua ainda ficasse por lá, não importa a maneira com a qual se levante – mais rápido ou com maior demora. Dói de qualquer forma.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Canudo gigante no céu azul

Rodava com o carro exibindo o braço esquerdo pendurado na janela aberta aos raspões da brisa suave, mas pesada que se chocava com aquele corpo em movimento. O sol da tarde já havia se escondido atrás dos edifícios mais altos ao redor, de forma que a luz forte do astro que habitualmente obriga a todos os motoristas a abaixar o quebra-sol e mesmo assim fazer fendas com os olhos para enxergar se despedira minutos atrás. Apesar do trânsito leve, a avenida estava tranquila para se movimentar.
No rádio, Springsteen cantava “You’re Missing”. O carro ia à cerca de 50 por hora, sem pressa. Ele sentia-se em um momento contemplativo, só que não sabia ainda ao certo do quê.
Olhou para fora através de seus óculos de sol de lentes verde e observou as pessoas, algumas poucas correndo para manter a forma, a maioria com pressa para chegar a algum lugar e algumas outras cansadas depois de mais um dia de trabalho. Entendia-as.
“Everything is everything...” ouvia-se no interior do seu carro.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Céu canino

– Ei, cara – ele me acordou, enquanto me cutucava com a pata. Parecia já estar tentando chamar minha atenção há um tempo. – Acorda aí, cara.
Abri os olhos lentamente. Inicialmente, não me dei conta de nada diferente. Mas, aos poucos, comecei a estranhar essa situação como um todo. Existia algo no mínimo peculiar acontecendo.
– Isso aí, mermão. Agora levanta, vamos lá, vamo batê perna – ele insistia, inquieto, visivelmente alegre por ter despertado minha atenção. Sorria, com a língua para fora, e dava pulinhos de animação. Abanava o rabinho.
Aí, me toquei.
Acreditei que ainda estava sonhando, pois pasmei enquanto constatava vagarosamente que eu estava ouvindo claramente meu cachorro falar comigo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O porco de argila

Eu tinha um porco de argila. Ainda tenho, na verdade. Devo tê-lo já há mais de cinco anos e venho o enchendo desde então.
Nele só entram moedas de 1 real. Essa é a condição primordial que eu estabeleci para o preenchimento do interior deste porquinho. Acredito que tal encargo seja o motivo principal pelo qual a pequena figura suína com um corte nas costas ainda exista. Afinal, não é algo lá muito comum eu chegar em casa com uma moeda de 1 real.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Dois carniceiros no céu

Certa vez, no intervalo de uma aula para outra, sentados em um dos vários bancos do arborizado campus, eu e Jeremias conversávamos.
– Se você parar pra pensar – dizia ele –, hoje em dia as produções andam muito mais caprichadas...
– É... – minhas ponderações daquele momento não acrescentavam muita informação relevante ao raciocínio. Me limitava a concordar.
– Sabe o que eu digo. Não é que não existissem séries boas antes. Mas hoje parece que há um apelo muito forte ao formato. Muitos astros do cinema estão protagonizando ou participando de séries.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Território de um tirano felino

Ai de quem se aproximasse demais daquele banco branco dele quando ele estivesse lá deitado. Aqueles grandes olhos azuis brilhariam de ameaça e disparariam contra o invasor ondas quentes de advertência: nem mais um passo, humano tolo.
Quando cheguei perto dele naquela noite em que na poltrona branca ele deitava adormecido, pude notar sua atenção despertada pela minha presença.
A orelha direita se ergueu num movimento do mais puro reflexo e alerta, e tenho certeza que ele soube que não estava sozinho e que seu trono de couro furado e arranhado estava sendo objeto de cobiça.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A barata

Noite escura e gélida de outono, onde o vento castiga de maneira implacável os incautos que se aventuram, por algum motivo, a andar pelas ruas. Noite daquelas onde o mais simples atendimento a uma necessidade emergente do corpo é extremamente complicado ante à possibilidade de se manter aquecido debaixo das cobertas. Noite onde os sádicos espíritos da tristeza fria e inalterável de um clima que castiga até mesmo os que se encontram mergulhados em sono profundo se encontram todos reunidos em uma verdadeira roda de chacota aos sentimentos e percepções humanas.
Noite fria.

sábado, 21 de junho de 2014

Sexta-feira

Mais um dia se passa na velocidade da luz, mais uma noite ele se encontra em sua cozinha, com a geladeira aberta, em uma minuciosa, atenta e esperançosa averiguação no conteúdo do aparelho.
Seu gato, esfomeado, miava escandalosamente, olhando-o com os olhos azuis severos, como se a sua tigela se encontrar cheia fosse somente uma questão de tempo.
Para falar bem a verdade, aquele folgado daquele gato não estava esfomeado coisa nenhuma. Era mais um dos Sete Pecados Capitais, que tomava conta do bicho dia e noite: a gula. Aliás, o bichano comia melhor do que o próprio dono.