terça-feira, 22 de agosto de 2017
terça-feira, 27 de junho de 2017
estrelinha brilhante
veio já em meio à tormenta
difícil puxar o ar
difícil começar a
lutar
quando pôde, era fraquinho
o ar que entrava,
que saía,
seus movimentos,
seu descansar
a luta
não cessou
só fez aumentar
o cisquinho tinha que
vencer barreiras
gigantes
maiores do que
o imaginável
o cisquinho
lutou
e quando depois de toda uma longa
angústia
cheia de
dores,
descansou e
já não tinha mais
o brilho em seus
olhinhos,
soube que ela finalmente
tinha ido ser aquilo
que ela veio para
ser
um cisquinho
de brilho distante
mas intenso e
cheio de
luz
lá em cima no
céu
a luta ficou por conta
dos que ficaram, pois
a pequenina
virou estrelinha
brilhante
provando novamente
que o céu é, sim,
lugar de
cachorro.
difícil puxar o ar
difícil começar a
lutar
quando pôde, era fraquinho
o ar que entrava,
que saía,
seus movimentos,
seu descansar
a luta
não cessou
só fez aumentar
o cisquinho tinha que
vencer barreiras
gigantes
maiores do que
o imaginável
o cisquinho
lutou
e quando depois de toda uma longa
angústia
cheia de
dores,
descansou e
já não tinha mais
o brilho em seus
olhinhos,
soube que ela finalmente
tinha ido ser aquilo
que ela veio para
ser
um cisquinho
de brilho distante
mas intenso e
cheio de
luz
lá em cima no
céu
a luta ficou por conta
dos que ficaram, pois
a pequenina
virou estrelinha
brilhante
provando novamente
que o céu é, sim,
lugar de
cachorro.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Diário matinal de uma avenida urbana
Naquele dia o sol castigava aqueles que se expunham a ele mais do que
o habitual, seja pela ausência de nuvens ou mesmo pela estação do
ano propícia a isso. As árvores exibiam seu verde vivo e forte que
dançava em diferentes ritmos à medida que o vento cortejava suas
folhas e galhos. Oito horas da manhã e a avenida não estava tão
abarrotada como sempre, apesar de contar, em seus dez quilômetros de
extensão, com uma considerável quantidade de carros transitando,
acelerando, parando, se arriscando, atrasados e sossegados.
Dia comum. A não ser por algumas figuras.
Quilômetro 1,5: no ponto de ônibus lá estava o bêbado, em plena
manhã de quarta-feira, conversando com o imaginário ou aquilo que
os outros sóbrios – pobres deles – não podiam ver. Gesticulava,
enquanto descansava naquele banco destinado aos pacientes futuros
passageiros do transporte coletivo. Apontando para o lado, no sentido
dos carros que seguiam naquela faixa, soltou uma gargalhada.
Certamente era o mais feliz sujeito daquela avenida e um dos mais
felizes da cidade inteira, pois não se importava com nada além de
seus devaneios surreais. Um sujeito de sorte.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Seiscentos e trinta e quatro
Sentia aquele hálito gelado na nuca enquanto os dedos descarnados dançavam suavemente sob a parte lateral de seu ombro. A imagem de um pobre infeliz como ele lhe apareceu à frente, num estrondoso grito sem voz, de voz que nunca seria ouvida, súplica silenciosa jamais recebida. Permaneceu parado enquanto a encapuzada misteriosa com seu beijo doce de perdição se aproximava cada vez mais; qualquer um poderia ter tentado correr. Sabia que ali, naquele campo, naquele local, naquele momento, este tipo de atitude seria completamente inútil. A figura do condenado à sua frente já não estava ansioso. Aguardava paciente. Não olhava mais pra ele, mas para a Temida atrás dele, que agora segurava com certa firmeza seu braço. O abraço da morte se aproximava. Chovia. Em meio à névoa, três figuras perdidas do mundo da realidade compartilhavam em contemplação reverente aquele pacto fatal que se alinhavava. Palavras humanas seriam insuficientes para descrever aquele tempestuoso, porém sereno momento. Dois condenados, um carrasco. A Morte quase o abraçava e, sentindo frio, mesmo à mercê do gélido toque da Dama de Preto, não se moveu. Sua atenção estava quase toda no sereno sujeito à sua frente que, em meio à escuridão, não estava marcado com a mórbida presença dela como ele estava. Aí, a compreensão e a certeza golpearam instantaneamente o quase-abraçado. Moribundo, ele, quase entregue à morte. O sujeito que encarava, porém, apesar de habitar de forma febril seus raivosos pensamentos, não. Sua jornada, então, teria que chegar ao seu fim. A Morte aproximava suas próprias mãos uma da outra em volta dele, praticamente completando o abraço que o levaria, quando ele se desvencilhou e deu um abrupto passo com firmeza para frente, movimento que fez com que os dedos descarnados e pontiagudos marcassem com profundos cortes seus braços. "Ainda não."
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Cacos ao chão
Normalmente o trânsito naquela hora da manhã era bem truncado e
frenético por conta dos tão amados motoqueiros-costureiros
apressados. Percorriam-se vinte metros para então ficar parado por
pouco mais de um minuto ao se acender o vermelho no sinal. E aquele
dia não vinha sendo diferente: Gabriel dos Alencar, com suas raras
habilidades automobilísticas, guiava pela faixa da direita da
avenida quase atingindo o limite da sua curta paciência.
Parou ao sinal fechado, com cerca de quatro carros à sua frente e o
sol mandando suas lembranças ao lamber os pára-brisas dos veículos
ali esperando como ele, quando observou o sujeito atravessando a rua
na faixa.
Tratava-se do tão conhecido anão japonês daquele bairro, que
trabalhava no açougue duas quadras pra frente. Enquanto os olhos de
Alencar seguiam o homem que andava a seu próprio ritmo, mal pôde
processar a informação de que um estrondoso barulho de motor sendo
elevado aos seus limites se aproximava à direita...
E, por conta da pequena distração nipônica, por um pouco não viu
quando um verdadeiro animal guiando uma esguia motocicleta vinha a
mil pela direita, entre os carros com seus motoristas esperando e os
carros estacionados na via.
Quando virou o olhar para o lado, tudo o que conseguiu ver foi o
momento em que motoqueiro, agora abaixado para conferir mais
aerodinâmica ao seu inconseqüente pilotar, passou moendo tudo ao
seu lado, produzindo um triste e doído (para Gabriel) barulho de
quebra que não lhe soou nada bom. Todavia, antes mesmo de processar
aquela informação, talvez antes mesmo de poder virar o rosto e já
no momento em que viu o anão japonês, Gabriel pressentiu o
inevitável: seu retrovisor direito restaria pendurado apenas pelos
fios, graças às gentilezas daquele motoqueiro absolutamente
desequilibrado.
– SEU FILHO DA PU... – não terminou de esbravejar sua polida
resposta ao ocorrido pois o arranca-espelhos já se encontrava longe.
Obviamente furara o sinal, quase se chocando com o inocente nipônico
de baixa estatura que, mais do que todos os outros motoristas ali
parados, nada tinha a ver com aquela situação toda.
Indignado e consternado, Alencar recebeu olhares de solidariedade e
igual indignação de seus vizinhos de sinal, observando da mesma
forma nas feições do rapaz que vendia balas e drops a clara
formação de uma expressão de “viiiiiiiiiiish” se anuviando.
– Essas bostas fazem parte, cara! Segue o jogo! – Alguém gritou.
Em resposta, acenou com a cabeça e deu um sorriso meio amarelado,
pois por dentro fervilhava, tomado por uma profunda ira, que foi se
tornando mais branda depois que ele começou a contar suas longas
respirações ao buscar diminuir a irritação. Afinal, o sujeito que
lhe deu apoio tinha razão.
Na hora de voltar a se movimentar, engatou a primeira e seguiu seu
rumo rotineiro, deixando alguns cacos quebrados para trás.
O espelho retrovisor demoraria uma semana e meia para arrumar, e
isso depois de quase ser pego pela fiscalização de trânsito da
cidade. O motoqueiro imbecil, nunca mais viu. No dia seguinte, já se
deparou com o anão japonês de novo.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
Carlinhu 29
Estava prestes a bater seu recorde pessoal de velocidade quando um
pequeno alarme interno o fez diminuir a passada. Como um
sentido-aranha ou aquela campainha aguda do celular, que quando toca
pela manhã quase o faz jogar o aparelho na parede, ele soube, só
que de forma mais intimista e até sutil.
E, infelizmente, não estava enganado.
Lá vinha o rapaz novamente, todo alegre e sorridente, numa
serelepimpância invejável. O pobre iludido vinha balançando os
ombros em um remelexo corporal desengonçado, com seu olhar
confiante, absoluto de si mas, coitado, sem fazer nem ideia da
repulsa que sua presença causava no outro. O até então quase
recordista desacelerou quase por completo a esteira ao notar pelo
canto dos olhos que o infeliz sorridente bobo alegre indesejado
estava olhando diretamente pra ele, vindo em sua direção.
“Brace yourselves...”
repetiu mentalmente a célebre frase do seriado, substituindo a
sequência da sentença
para “o cheiroso está chegando”.
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Abri os olhos com uma palavra martelando a cabeça
eu sou nada
nada em meio ao tudo
um fragmento microscópico
daquilo tudo que nada é
um pedaço minúsculo do pó
destinado a vagar incessantemente
em meio àquilo que nada tem
a poeira em cima
da escrivaninha de um cômodo vazio
um suspiro silencioso
que descreve um presságio vazio
aquilo tudo
que nada faz
eu sou nada
e tudo isso
em nada tudo mudou
nada em meio ao tudo
um fragmento microscópico
daquilo tudo que nada é
um pedaço minúsculo do pó
destinado a vagar incessantemente
em meio àquilo que nada tem
a poeira em cima
da escrivaninha de um cômodo vazio
um suspiro silencioso
que descreve um presságio vazio
aquilo tudo
que nada faz
eu sou nada
e tudo isso
em nada tudo mudou
domingo, 15 de maio de 2016
gritos vazios
Sentei-me em frente à mesa
com o teclado pedindo para ser
teclado
o copo ao lado suando gota solitária
escorrendo em reverente delicadeza
que atrasava um pouco mais
a lentidão da descida
tela em branco e eu
querendo escrever alguma
coisa
Formar palavras
frases
nem que fossem
belas mentiras
doces ilusões
A gota, antes no copo
agora na testa enrugada
me denunciava a verdade
escancarada
aquela realidade de merda que
me assombrava enquanto minha
mente procurava a ignorância:
Não.
Eu não tinha nada a
dizer.
com o teclado pedindo para ser
teclado
o copo ao lado suando gota solitária
escorrendo em reverente delicadeza
que atrasava um pouco mais
a lentidão da descida
tela em branco e eu
querendo escrever alguma
coisa
Formar palavras
frases
nem que fossem
belas mentiras
doces ilusões
A gota, antes no copo
agora na testa enrugada
me denunciava a verdade
escancarada
aquela realidade de merda que
me assombrava enquanto minha
mente procurava a ignorância:
Não.
Eu não tinha nada a
dizer.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Cotidiano do sonho esquecido
Acordou chutando o lençol, testa suada, olhando
ao redor com cautela em manifesto momento de inquietação, com perfeita ciência
de que a desorientação tomara posse de suas faculdades mentais. Não emitiu som
algum pela boca.
Praguejando baixinho ao se apoiar na borda da
cama para acomodar de maneira mais completa sua traseira, foi capaz de ver
passar um breve filme em sua mente acerca daquele momento, quase como um
daqueles déjà vu. Quando moleque, era
também arremessado de forma violenta para fora de um sonho qualquer, caindo
diretamente nas garras daquela vadia da realidade. Porém, nestes outros tempos
se tratavam somente daqueles sonhos idiotas onde se tinha a infeliz da sensação
de estar caindo de um edifício de infinitos andares. Ultimamente, desconhecia o
motivo, mas estava familiarizado com o resultado.
Foi propositalmente incapaz de notar a desordem
absoluta do quarto ao se encaminhar ao banheiro. Seus pés não encontraram
nenhuma das garrafas vazias esquecidas no chão e, por isso, ele se manteve
ativamente satisfeito neste jogo de auto-ilusão.
domingo, 31 de maio de 2015
Visita no turno da noite
– Raimundão! Ê, Raimundão! –
chamou o balconista pela janelinha de dentro da conveniência. Raimundo acabara
de recolocar a mangueira em seu devido lugar. – O Branquinho quer falar com
você lá na sala dele...
Agradecendo com um aceno de
cabeça, Raimundo começou a se encaminhar lentamente para os fundos do
estabelecimento, onde ficava um pequeno complexo acinzentado contendo, dentre
espaços destinados aos próprios funcionários, um gabinete dentro do qual o gerente
do posto de gasolina se aninhava e vivia lançando comandos administrativos
bestas aos subordinados pelo telefone.
Humildemente, o frentista bateu
de leve na porta do chefe e colocou a cabeça para dentro da sala.
– Oh, olá, Raimundo, gostaria
de dar uma palavrinha contigo – o gerente, apelidado sarcástica e secretamente
de Branquinho pelos empregados do posto, se pavoneava com diversos dos seus
itens excêntricos de coleção espalhados pela mesa. – Pode se sentar, homem, não
tenha medo – emendou o gerente. O homem não era má gente, afinal.
Coçando a cabeça, já aguardando
pelo pior, Raimundo se sentou na dura poltrona cor de carne dos anos 80
enquanto revezava seu olhar de Branquinho para anéis de lata jogados pela mesa
e vice-versa.
