terça-feira, 27 de junho de 2017

estrelinha brilhante

veio já em meio à tormenta
difícil puxar o ar
difícil começar a
lutar
quando pôde, era fraquinho
o ar que entrava,
que saía,
seus movimentos,
seu descansar
a luta
não cessou
só fez aumentar
o cisquinho tinha que
vencer barreiras
gigantes
maiores do que
o imaginável
o cisquinho
lutou
e quando depois de toda uma longa
angústia
cheia de
dores,
descansou e
já não tinha mais
o brilho em seus
olhinhos,
soube que ela finalmente
tinha ido ser aquilo
que ela veio para
ser
um cisquinho
de brilho distante
mas intenso e
cheio de
luz
lá em cima no
céu
a luta ficou por conta
dos que ficaram, pois
a pequenina
virou estrelinha
brilhante
provando novamente
que o céu é, sim,
lugar de
cachorro.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Diário matinal de uma avenida urbana

Naquele dia o sol castigava aqueles que se expunham a ele mais do que o habitual, seja pela ausência de nuvens ou mesmo pela estação do ano propícia a isso. As árvores exibiam seu verde vivo e forte que dançava em diferentes ritmos à medida que o vento cortejava suas folhas e galhos. Oito horas da manhã e a avenida não estava tão abarrotada como sempre, apesar de contar, em seus dez quilômetros de extensão, com uma considerável quantidade de carros transitando, acelerando, parando, se arriscando, atrasados e sossegados.
Dia comum. A não ser por algumas figuras.
Quilômetro 1,5: no ponto de ônibus lá estava o bêbado, em plena manhã de quarta-feira, conversando com o imaginário ou aquilo que os outros sóbrios – pobres deles – não podiam ver. Gesticulava, enquanto descansava naquele banco destinado aos pacientes futuros passageiros do transporte coletivo. Apontando para o lado, no sentido dos carros que seguiam naquela faixa, soltou uma gargalhada. Certamente era o mais feliz sujeito daquela avenida e um dos mais felizes da cidade inteira, pois não se importava com nada além de seus devaneios surreais. Um sujeito de sorte.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Seiscentos e trinta e quatro

Sentia aquele hálito gelado na nuca enquanto os dedos descarnados dançavam suavemente sob a parte lateral de seu ombro. A imagem de um pobre infeliz como ele lhe apareceu à frente, num estrondoso grito sem voz, de voz que nunca seria ouvida, súplica silenciosa jamais recebida. Permaneceu parado enquanto a encapuzada misteriosa com seu beijo doce de perdição se aproximava cada vez mais; qualquer um poderia ter tentado correr. Sabia que ali, naquele campo, naquele local, naquele momento, este tipo de atitude seria completamente inútil. A figura do condenado à sua frente já não estava ansioso. Aguardava paciente. Não olhava mais pra ele, mas para a Temida atrás dele, que agora segurava com certa firmeza seu braço. O abraço da morte se aproximava. Chovia. Em meio à névoa, três figuras perdidas do mundo da realidade compartilhavam em contemplação reverente aquele pacto fatal que se alinhavava. Palavras humanas seriam insuficientes para descrever aquele tempestuoso, porém sereno momento. Dois condenados, um carrasco. A Morte quase o abraçava e, sentindo frio, mesmo à mercê do gélido toque da Dama de Preto, não se moveu. Sua atenção estava quase toda no sereno sujeito à sua frente que, em meio à escuridão, não estava marcado com a mórbida presença dela como ele estava. Aí, a compreensão e a certeza golpearam instantaneamente o quase-abraçado. Moribundo, ele, quase entregue à morte. O sujeito que encarava, porém, apesar de habitar de forma febril seus raivosos pensamentos, não. Sua jornada, então, teria que chegar ao seu fim. A Morte aproximava suas próprias mãos uma da outra em volta dele, praticamente completando o abraço que o levaria, quando ele se desvencilhou e deu um abrupto passo com firmeza para frente, movimento que fez com que os dedos descarnados e pontiagudos marcassem com profundos cortes seus braços. "Ainda não."

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Cacos ao chão

Normalmente o trânsito naquela hora da manhã era bem truncado e frenético por conta dos tão amados motoqueiros-costureiros apressados. Percorriam-se vinte metros para então ficar parado por pouco mais de um minuto ao se acender o vermelho no sinal. E aquele dia não vinha sendo diferente: Gabriel dos Alencar, com suas raras habilidades automobilísticas, guiava pela faixa da direita da avenida quase atingindo o limite da sua curta paciência.
Parou ao sinal fechado, com cerca de quatro carros à sua frente e o sol mandando suas lembranças ao lamber os pára-brisas dos veículos ali esperando como ele, quando observou o sujeito atravessando a rua na faixa.
Tratava-se do tão conhecido anão japonês daquele bairro, que trabalhava no açougue duas quadras pra frente. Enquanto os olhos de Alencar seguiam o homem que andava a seu próprio ritmo, mal pôde processar a informação de que um estrondoso barulho de motor sendo elevado aos seus limites se aproximava à direita...
E, por conta da pequena distração nipônica, por um pouco não viu quando um verdadeiro animal guiando uma esguia motocicleta vinha a mil pela direita, entre os carros com seus motoristas esperando e os carros estacionados na via.
Quando virou o olhar para o lado, tudo o que conseguiu ver foi o momento em que motoqueiro, agora abaixado para conferir mais aerodinâmica ao seu inconseqüente pilotar, passou moendo tudo ao seu lado, produzindo um triste e doído (para Gabriel) barulho de quebra que não lhe soou nada bom. Todavia, antes mesmo de processar aquela informação, talvez antes mesmo de poder virar o rosto e já no momento em que viu o anão japonês, Gabriel pressentiu o inevitável: seu retrovisor direito restaria pendurado apenas pelos fios, graças às gentilezas daquele motoqueiro absolutamente desequilibrado.
– SEU FILHO DA PU... – não terminou de esbravejar sua polida resposta ao ocorrido pois o arranca-espelhos já se encontrava longe. Obviamente furara o sinal, quase se chocando com o inocente nipônico de baixa estatura que, mais do que todos os outros motoristas ali parados, nada tinha a ver com aquela situação toda.
Indignado e consternado, Alencar recebeu olhares de solidariedade e igual indignação de seus vizinhos de sinal, observando da mesma forma nas feições do rapaz que vendia balas e drops a clara formação de uma expressão de “viiiiiiiiiiish” se anuviando.
– Essas bostas fazem parte, cara! Segue o jogo! – Alguém gritou. Em resposta, acenou com a cabeça e deu um sorriso meio amarelado, pois por dentro fervilhava, tomado por uma profunda ira, que foi se tornando mais branda depois que ele começou a contar suas longas respirações ao buscar diminuir a irritação. Afinal, o sujeito que lhe deu apoio tinha razão.
Na hora de voltar a se movimentar, engatou a primeira e seguiu seu rumo rotineiro, deixando alguns cacos quebrados para trás.
O espelho retrovisor demoraria uma semana e meia para arrumar, e isso depois de quase ser pego pela fiscalização de trânsito da cidade. O motoqueiro imbecil, nunca mais viu. No dia seguinte, já se deparou com o anão japonês de novo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Carlinhu 29

Estava prestes a bater seu recorde pessoal de velocidade quando um pequeno alarme interno o fez diminuir a passada. Como um sentido-aranha ou aquela campainha aguda do celular, que quando toca pela manhã quase o faz jogar o aparelho na parede, ele soube, só que de forma mais intimista e até sutil.
E, infelizmente, não estava enganado.
Lá vinha o rapaz novamente, todo alegre e sorridente, numa serelepimpância invejável. O pobre iludido vinha balançando os ombros em um remelexo corporal desengonçado, com seu olhar confiante, absoluto de si mas, coitado, sem fazer nem ideia da repulsa que sua presença causava no outro. O até então quase recordista desacelerou quase por completo a esteira ao notar pelo canto dos olhos que o infeliz sorridente bobo alegre indesejado estava olhando diretamente pra ele, vindo em sua direção.
Brace yourselves...” repetiu mentalmente a célebre frase do seriado, substituindo a sequência da sentença para “o cheiroso está chegando”.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Abri os olhos com uma palavra martelando a cabeça

eu sou nada
nada em meio ao tudo
um fragmento microscópico
daquilo tudo que nada é
um pedaço minúsculo do pó
destinado a vagar incessantemente
em meio àquilo que nada tem
a poeira em cima
da escrivaninha de um cômodo vazio
um suspiro silencioso
que descreve um presságio vazio
aquilo tudo
que nada faz

eu sou nada
e tudo isso
em nada tudo mudou

domingo, 15 de maio de 2016

gritos vazios

Sentei-me em frente à mesa
com o teclado pedindo para ser
teclado
o copo ao lado suando gota solitária
escorrendo em reverente delicadeza
que atrasava um pouco mais
a lentidão da descida
tela em branco e eu
querendo escrever alguma
coisa
Formar palavras
frases
nem que fossem
belas mentiras
doces ilusões
A gota, antes no copo
agora na testa enrugada
me denunciava a verdade
escancarada
aquela realidade de merda que
me assombrava enquanto minha
mente procurava a ignorância:
Não.
Eu não tinha nada a
dizer.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cotidiano do sonho esquecido

Acordou chutando o lençol, testa suada, olhando ao redor com cautela em manifesto momento de inquietação, com perfeita ciência de que a desorientação tomara posse de suas faculdades mentais. Não emitiu som algum pela boca.
Praguejando baixinho ao se apoiar na borda da cama para acomodar de maneira mais completa sua traseira, foi capaz de ver passar um breve filme em sua mente acerca daquele momento, quase como um daqueles déjà vu. Quando moleque, era também arremessado de forma violenta para fora de um sonho qualquer, caindo diretamente nas garras daquela vadia da realidade. Porém, nestes outros tempos se tratavam somente daqueles sonhos idiotas onde se tinha a infeliz da sensação de estar caindo de um edifício de infinitos andares. Ultimamente, desconhecia o motivo, mas estava familiarizado com o resultado.
Foi propositalmente incapaz de notar a desordem absoluta do quarto ao se encaminhar ao banheiro. Seus pés não encontraram nenhuma das garrafas vazias esquecidas no chão e, por isso, ele se manteve ativamente satisfeito neste jogo de auto-ilusão.

domingo, 31 de maio de 2015

Visita no turno da noite

– Raimundão! Ê, Raimundão! – chamou o balconista pela janelinha de dentro da conveniência. Raimundo acabara de recolocar a mangueira em seu devido lugar. – O Branquinho quer falar com você lá na sala dele...
Agradecendo com um aceno de cabeça, Raimundo começou a se encaminhar lentamente para os fundos do estabelecimento, onde ficava um pequeno complexo acinzentado contendo, dentre espaços destinados aos próprios funcionários, um gabinete dentro do qual o gerente do posto de gasolina se aninhava e vivia lançando comandos administrativos bestas aos subordinados pelo telefone.
Humildemente, o frentista bateu de leve na porta do chefe e colocou a cabeça para dentro da sala.
– Oh, olá, Raimundo, gostaria de dar uma palavrinha contigo – o gerente, apelidado sarcástica e secretamente de Branquinho pelos empregados do posto, se pavoneava com diversos dos seus itens excêntricos de coleção espalhados pela mesa. – Pode se sentar, homem, não tenha medo – emendou o gerente. O homem não era má gente, afinal.
Coçando a cabeça, já aguardando pelo pior, Raimundo se sentou na dura poltrona cor de carne dos anos 80 enquanto revezava seu olhar de Branquinho para anéis de lata jogados pela mesa e vice-versa.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Aquela do gordinho da perna de aço

Às vezes algumas coisas simplesmente não eram para ser.
Mergulhado em devaneios profundos, questões que em qualquer outro momento seriam insignificantes, mas que, naquele exato instante, faziam sentido e tinham importância, fui arrastando pé ante pé, como um condenado ao corredor da morte ou um infeliz marcado a passar um feriado prolongado trancafiado com aquele tagarela chato da família enquanto na TV não existisse nada além de um looping infinito programas dominicais.
Bem, aquilo seria bom para mim, eu repetia. Insistia no argumento, cada vez mais batido. A voz irritante matraqueava no meu ouvido, “alá, é bom, não, não para não...” e eu continuava me arrastando.
– E ai, cara, vamos entrando!
Nem me toquei que já havia chegado.
Profundos devaneios, afinal.
Poderia estar matando, roubando, vendendo chicletes, tomando uma cerveja com o meu vizinho no happy hour, lambendo os dedos cheios de farelos de salgadinhos, fazendo ligações a cobrar ou até assistindo a novela.
Mas não. Estava lá, na minha segunda semana de aulas de muay thai.