quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Canudo gigante no céu azul
Rodava com o carro exibindo o
braço esquerdo pendurado na janela aberta aos raspões da brisa suave, mas
pesada que se chocava com aquele corpo em movimento. O sol da tarde já havia se
escondido atrás dos edifícios mais altos ao redor, de forma que a luz forte do astro
que habitualmente obriga a todos os motoristas a abaixar o quebra-sol e mesmo
assim fazer fendas com os olhos para enxergar se despedira minutos atrás.
Apesar do trânsito leve, a avenida estava tranquila para se movimentar.
No rádio, Springsteen cantava “You’re Missing”. O carro
ia à cerca de 50 por hora, sem pressa. Ele sentia-se em um momento
contemplativo, só que não sabia ainda ao certo do quê.
Olhou para fora através de seus
óculos de sol de lentes verde e observou as pessoas, algumas poucas correndo
para manter a forma, a maioria com pressa para chegar a algum lugar e algumas
outras cansadas depois de mais um dia de trabalho. Entendia-as.
“Everything
is everything...” ouvia-se no interior do seu carro.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Círculo
– Escuta aqui, seu puto – cuspiu
enraivecido enquanto se levantava – perdeu amor a essa sua vidinha de merda?
Qualquer um poderia farejar uma
briga feia a caminho. A galope, em urgente iminência, como a decolagem certa de
um avião que se encaminha ligeiro ao longo da pista de lançamento.
Eu não fiz, exatamente, por mal.
Na verdade tratou-se muito mais de um impulso impensado, irracional e
completamente alheio a tudo que eu já vivenciara do que um movimento ponderado
e calculado. Ele simplesmente estava lá, eu há uns cinco metros, e aquilo
aconteceu.
O homem era mais alto do que eu.
Uns dez centímetros, pelo menos, e aparentava robustez de músculos, lembrando
muito um grande barril de carvalho.
Veio bufando e quase babando, com
olhos de fúria e embriaguez, para cima de mim, de punhos cerrados e peito
aberto, como um verdadeiro galo de briga. Não tive escolha.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Céu canino
– Ei, cara – ele me acordou,
enquanto me cutucava com a pata. Parecia já estar tentando chamar minha atenção
há um tempo. – Acorda aí, cara.
Abri os olhos lentamente.
Inicialmente, não me dei conta de nada diferente. Mas, aos poucos, comecei a
estranhar essa situação como um todo. Existia algo no mínimo peculiar
acontecendo.
– Isso aí, mermão. Agora
levanta, vamos lá, vamo batê perna – ele insistia, inquieto, visivelmente
alegre por ter despertado minha atenção. Sorria, com a língua para fora, e dava
pulinhos de animação. Abanava o rabinho.
Aí, me toquei.
Acreditei que ainda estava
sonhando, pois pasmei enquanto constatava vagarosamente que eu estava ouvindo
claramente meu cachorro falar comigo.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
O homem sem rosto
Na época, meu irmão tinha seis
anos. Era mais uma criança feliz, saudável e esperta, que frequentava a
escolinha e não tinha problemas de convivência com nenhum de seus colegas,
professores ou familiares. Estava todo tempo a matraquear pelos cantos,
correndo e brincando como se não houvesse amanhã. Seus olhos grandes e de um
verde claro expressavam de sobremaneira todo seu alegre e constante estado de
espírito.
Apesar de toda a intensidade
física das correrias e brincadeiras de meu irmão mais novo, o bairro em que
morávamos, no centro da capital paranaense, não permitia que a criança saísse
às ruas de modo que nossa mãe ficasse sossegada, já que o local era,
essencialmente, urbano e muito movimentado. Residíamos em um apartamento alto,
bem no meio de uma grande avenida que contava com diversas lojas e
estabelecimentos. A frequente e, por vezes, perigosa rotina urbana daquele
local trancafiava a mim e ao meu irmão em casa sozinhos, todas as tardes,
depois da escola.
Certa tarde de inverno, o
apartamento todo fechado, meu irmão, em meio a uma partida de videogame, me
confidenciou algo que, pela sua fala, soava como um forçoso momento em que se
procura fazer o outro acreditar que aquilo que se está dizendo trata-se da
coisa mais normal do mundo:
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Aquela experiência traumática que ele tentou evitar
Poço.
E ele sentia crescer dentro de
si aquela apreensão imensa e esmagadora, que na verdade se tratava de um
profundo e escuro
poço
consumindo-o, abrindo uma
ferida que esperança ou misericórdia alguma poderiam suprimir, uma ferida tão
grande que sua presença, afinal, não passava de uma verdadeira ausência de algo
que outrora estivera ali e parecia-lhe ser algo de extrema importância, mas que
agora...
Um espasmo nervoso.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Poema de um mundo inacabado
Oh, ai de mim, que imagino
Um mundo onde a vilania
Não é corriqueira
E a esperança de bondade
Não seja utopia;
Oh, ai de mim por ver,
Ver em mim
Traços daquilo que repreendo,
Momentos de frágil hipocrisia,
Onde sou nada menos
Do que aquilo que se é
O ser humano;
Oh, ai de mim,
Ai de mim por ver,
Por sentir, ai de mim
Por estar vivenciando,
Vivenciar, perceber,
Oh, ai de mim por fazer parte,
Parte de tudo que vejo,
Ai de mim, ser humano,
Que nada mais fiz do que
Continuar contribuindo
Para a preguiçosa e
Egoísta,
Corriqueira vilania.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
O porco de argila
Eu tinha um porco de argila.
Ainda tenho, na verdade. Devo tê-lo já há mais de cinco anos e venho o enchendo
desde então.
Nele só entram moedas de 1
real. Essa é a condição primordial que eu estabeleci para o preenchimento do
interior deste porquinho. Acredito que tal encargo seja o motivo principal pelo
qual a pequena figura suína com um corte nas costas ainda exista. Afinal, não é
algo lá muito comum eu chegar em casa com uma moeda de 1 real.
domingo, 31 de agosto de 2014
Sinal vermelho
Dirijo.
Trabalhava em um novo projeto
de condomínio. Ainda estava no rascunho e não sabia dizer se ficaria bom. Minha
precocidade na função conferia a cada ato meu uma grande pitada de incertezas.
Mas esta gama de possibilidades me fascinava. Meus desenhos, que antes eram
cheios de vida mas um tanto quanto imaginativos demais, passaram a ganhar
traços verossímeis e realistas, coisa que facilitaria o processo de aceitação e
posterior execução daquilo que foi projetado. Essa era a tendência. O lápis
ainda deslizava sobre a folha com um certo vigor, mas possuía uma trajetória
diferente que outrora tivera. Eu estava aprendendo. Isso já era algo a se
celebrar.
Terminava um gramado qualquer
quando o telefone tocou.
Acidente feio. Mortes. Eu sabia
quem. Deveria me apressar. Perdi o chão. Larguei tudo. Corri. Era noite.
Chovia. Entrei no carro. Dei a partida. Arranquei. Estava desorientado. Sinal.
Vermelho. Furei. Não pensava. Alucinado. Caótico. Acelerava. Rápido. Para-brisa
molhado. Faixa contínua. Mão dupla. Enxergava muito mal. Pensava em tudo. E em
nada. Não diminuía. Ainda longe. Acelerei. Outro sinal. Vermelho.
Dirigia.
A luz à esquerda surgiu e
repentinamente cresceu, envolvendo tudo ao meu redor, rápida.
Não ouvi estrondo algum.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Dois carniceiros no céu
Certa vez, no intervalo de uma
aula para outra, sentados em um dos vários bancos do arborizado campus, eu e
Jeremias conversávamos.
– Se você parar pra pensar –
dizia ele –, hoje em dia as produções andam muito mais caprichadas...
– É... – minhas ponderações daquele
momento não acrescentavam muita informação relevante ao raciocínio. Me limitava
a concordar.
– Sabe o que eu digo. Não é que
não existissem séries boas antes. Mas hoje parece que há um apelo muito forte
ao formato. Muitos astros do cinema estão protagonizando ou participando de
séries.
