eu sou nada
nada em meio ao tudo
um fragmento microscópico
daquilo tudo que nada é
um pedaço minúsculo do pó
destinado a vagar incessantemente
em meio àquilo que nada tem
a poeira em cima
da escrivaninha de um cômodo vazio
um suspiro silencioso
que descreve um presságio vazio
aquilo tudo
que nada faz
eu sou nada
e tudo isso
em nada tudo mudou
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
domingo, 15 de maio de 2016
gritos vazios
Sentei-me em frente à mesa
com o teclado pedindo para ser
teclado
o copo ao lado suando gota solitária
escorrendo em reverente delicadeza
que atrasava um pouco mais
a lentidão da descida
tela em branco e eu
querendo escrever alguma
coisa
Formar palavras
frases
nem que fossem
belas mentiras
doces ilusões
A gota, antes no copo
agora na testa enrugada
me denunciava a verdade
escancarada
aquela realidade de merda que
me assombrava enquanto minha
mente procurava a ignorância:
Não.
Eu não tinha nada a
dizer.
com o teclado pedindo para ser
teclado
o copo ao lado suando gota solitária
escorrendo em reverente delicadeza
que atrasava um pouco mais
a lentidão da descida
tela em branco e eu
querendo escrever alguma
coisa
Formar palavras
frases
nem que fossem
belas mentiras
doces ilusões
A gota, antes no copo
agora na testa enrugada
me denunciava a verdade
escancarada
aquela realidade de merda que
me assombrava enquanto minha
mente procurava a ignorância:
Não.
Eu não tinha nada a
dizer.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Cotidiano do sonho esquecido
Acordou chutando o lençol, testa suada, olhando
ao redor com cautela em manifesto momento de inquietação, com perfeita ciência
de que a desorientação tomara posse de suas faculdades mentais. Não emitiu som
algum pela boca.
Praguejando baixinho ao se apoiar na borda da
cama para acomodar de maneira mais completa sua traseira, foi capaz de ver
passar um breve filme em sua mente acerca daquele momento, quase como um
daqueles déjà vu. Quando moleque, era
também arremessado de forma violenta para fora de um sonho qualquer, caindo
diretamente nas garras daquela vadia da realidade. Porém, nestes outros tempos
se tratavam somente daqueles sonhos idiotas onde se tinha a infeliz da sensação
de estar caindo de um edifício de infinitos andares. Ultimamente, desconhecia o
motivo, mas estava familiarizado com o resultado.
Foi propositalmente incapaz de notar a desordem
absoluta do quarto ao se encaminhar ao banheiro. Seus pés não encontraram
nenhuma das garrafas vazias esquecidas no chão e, por isso, ele se manteve
ativamente satisfeito neste jogo de auto-ilusão.
domingo, 31 de maio de 2015
Visita no turno da noite
– Raimundão! Ê, Raimundão! –
chamou o balconista pela janelinha de dentro da conveniência. Raimundo acabara
de recolocar a mangueira em seu devido lugar. – O Branquinho quer falar com
você lá na sala dele...
Agradecendo com um aceno de
cabeça, Raimundo começou a se encaminhar lentamente para os fundos do
estabelecimento, onde ficava um pequeno complexo acinzentado contendo, dentre
espaços destinados aos próprios funcionários, um gabinete dentro do qual o gerente
do posto de gasolina se aninhava e vivia lançando comandos administrativos
bestas aos subordinados pelo telefone.
Humildemente, o frentista bateu
de leve na porta do chefe e colocou a cabeça para dentro da sala.
– Oh, olá, Raimundo, gostaria
de dar uma palavrinha contigo – o gerente, apelidado sarcástica e secretamente
de Branquinho pelos empregados do posto, se pavoneava com diversos dos seus
itens excêntricos de coleção espalhados pela mesa. – Pode se sentar, homem, não
tenha medo – emendou o gerente. O homem não era má gente, afinal.
Coçando a cabeça, já aguardando
pelo pior, Raimundo se sentou na dura poltrona cor de carne dos anos 80
enquanto revezava seu olhar de Branquinho para anéis de lata jogados pela mesa
e vice-versa.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Aquela do gordinho da perna de aço
Às vezes algumas coisas
simplesmente não eram para ser.
Mergulhado em devaneios
profundos, questões que em qualquer outro momento seriam insignificantes, mas
que, naquele exato instante, faziam sentido e tinham importância, fui
arrastando pé ante pé, como um condenado ao corredor da morte ou um infeliz
marcado a passar um feriado prolongado trancafiado com aquele tagarela chato da
família enquanto na TV não existisse nada além de um looping infinito programas dominicais.
Bem, aquilo seria bom para mim,
eu repetia. Insistia no argumento, cada vez mais batido. A voz irritante
matraqueava no meu ouvido, “alá, é bom,
não, não para não...” e eu continuava me arrastando.
– E ai, cara, vamos entrando!
Nem me toquei que já havia chegado.
Profundos devaneios, afinal.
Poderia estar matando,
roubando, vendendo chicletes, tomando uma cerveja com o meu vizinho no happy hour, lambendo os dedos cheios de
farelos de salgadinhos, fazendo ligações a cobrar ou até assistindo a novela.
Mas não. Estava lá, na minha
segunda semana de aulas de muay thai.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Idas e vindas
– Já te disse pra esquecer
iss...
– CALA ESSA BOCA!! Me faz um
favor, faz um favor pro mundo, seu bosta: cale essa maldita boca!
– Escuta aqui, sua... – ele ia
xingar, mas pensou melhor. Porém, antes de conseguir articular sua revigorada
linha argumentativa, ela continuou:
– Ah é?! Agora você vai ficar
falando merda de mim, seu filho da put...
– Charlote. Para. Por favor. Me
deixa falar.
– Tudo, absolutamente tudo que
você fala pra mim não passa da mais pura e fedorenta merda.
– Não é bem assim... calma...
– Só vou ter calma quando você
parar de me encher o saco de vez, seu desgraçado.
– Você está com a cabeça
quente.
– EU TÔ COM A CABEÇA QUENTE?
– Vo...
– ESCUTA AQUI, SEU MERDA. NUNCA
MAIS...
Silêncio.
Do outro lado da linha, tudo o
que ele pôde ouvir foi o mais profundo e irremediável silêncio. Chegava a ser
constrangedor ante a ferrenha discussão que já durava cerca de uma hora e meia.
Ela costumava ter estes ataques. Ele lidava melhor com aquilo quando tinha em
mãos algo para molhar o bico. Não era o caso. E ela estava desta vez levando as
coisas para um nível que até o próprio Leonardo não conseguia prever e muito
menos podia saber como lidar. Se ao menos tivesse algo para beber...
domingo, 22 de março de 2015
O vale das sombras
Caía.
Embaixo de si, nada além das fortes rajadas de
vento que vinham de encontro com seu corpo paralisado que, sob a influência
irresistível da gravidade
você
não
devia
...
caía.
Olhava à volta. Nada além de escuridão, no que
parecia ser uma parede cavernal úmida e perigosa. A agonia crescia em seu
peito, pois a queda parecia não ter fim – num abismo infernal que, apesar de
conter toques evidentemente oníricos, não se tratava de um daqueles simples
sonhos de queda livre. Sua própria alma estava gelada e, se pudesse em sua
consciência apostar em algo, apostaria que aquilo tudo era
sexta-feira, 13 de março de 2015
Bateria
Acordou no meio da
noite, a escuridão envolvendo o quarto quase que por completo à exceção da
luzinha da bateria do notebook que piscava sua fraca claridade azul para avisar
que estava em processo de recarga.
Estava meio zonzo.
Sonho ruim. Olhou de lado, virou para o outro, pra cima e para baixo, sem
conseguir decifrar seus próprios sentimentos imediatos.
Ora, por que havia
acordado àquela hora e, mais, por que se levantou assim? Poderia muito bem ter
permanecido ali, deitado e paciente, esperando o sono voltar a abraça-lo.
Tolo, pensou.
Resmungando, colocou as
pernas na beirada da cama. “Que merda é
essa?”
Sabia, com certeza, que
não precisava ir ao banheiro e que sua garganta não estava seca, não
necessitando naquele momento se levantar para ir à cozinha buscar água. Duas
necessidades tidas como urgentes que descartara de pronto. Contudo, mesmo
assim, sentia falta de algo. Mas independente disso, amaldiçoando aquele
momento, não sabia o que procurar, ou onde, ou como.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Terra cinza
para onde foram os lírios? pois em frente vejo só
destruição
para que destino seguiram a grama e os pomares? às
cinzas se fundiram?
pois só vejo cinzas daquilo que foi fogo
fogo que aqui acabou com tudo aquilo que se era bom
de se ver
e enquanto olho, meus olhos parecem não querer
conhecer
aqueles que queriam que conhecêssemos como nossos
proprietários
num momento de fúria, à paisagem causaram dor
e a dor vem em mim agora
forte e
única
porque sei que além dos lírios destruídos
a terra outrora tão bonita e agora arruinada, cinza
e em chamas, infértil e ferida
também foi palco da matança daqueles meus
que comigo dividiam a ceia e
comigo passavam a madrugada e
junto de mim trabalhavam e apanhavam e
sabiam saborear a brisa do final de tarde,
apesar de todo sofrimento;
os que não jazem junto à terra devastada
correram ligeiros tentando alcançar o distante
destino
para, todos sabemos, morrerem logo
pela mão do carrasco
ou pelos dissabores do caminho
oh, as lágrimas em meus olhos
não me impedem de reconhecer, à frente, a cavalo,
aqueles que antes nos açoitavam
mas agora nos destruíram
chegando, golpeando seus animais, com o ódio
demoníaco da destruição
nos próprios olhos;
próprios demônios a galope
de armas em punho e semeando devastação por onde
passam;
e eles vêm em minha direção
estremecendo, sinto no coração
o medo diante de toda esta escuridão
mas minhas pernas não querem mais correr
meu ser não quer mais fugir
e nem um grito consegue subir garganta acima
pois tudo o que vejo e sinto
não passa do frio punho do destino
caindo sobre nós
demônios a galope
olho mais uma vez para o lado, as cinzas a dançar
quilômetros a fio
onde o fogo já não mais se banqueteia
satisfeito pela morte já provocada
demônios a galope
para onde foram os lírios?
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Manhã de sexta
6h14 da madrugada e eu,
irremediavelmente, já me encontro desperto. Não teve jeito. Novamente, acordei
por volta de uma hora e seis minutos antes do meu despertador gritar para
cumprir sua função de me tirar do sono pesado.
Devagar, abro os olhos,
fechando-os logo em seguida depressa. Mais uma vez, abro-os. Fecho. Abro. E o
processo se repete até que não só meu subconsciente, mas boa parte da minha
cognição perceptiva e até mesmo alguns outros músculos corporais tenham ciência
de que desta vez o repouso não se estenderá mais. Abro os olhos.
Ainda deitado na cama, me
deparo com aquilo que é a pior parte deste processo todo: se levantar da cama.
Não, o pior de tudo não é conseguir abrir os olhos de vez ou se convencer de
que o dia começou mais cedo. A parte mais problemática é realmente a de colocar
todo o conjunto corporal para trabalhar nos esforços cooperativos de se mexer
com o objetivo final de sair daquilo que é o santuário aconchegante e
irresistível do sono. Uma das escolhas mais difíceis que alguém que acordou
cedo demais toma é a de se retirar da cama. É como se durante o processo uma
parte sua ainda ficasse por lá, não importa a maneira com a qual se levante –
mais rápido ou com maior demora. Dói de qualquer forma.